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quinta-feira, 16 de março de 2017

E ERAM ZUMBIS

UMA CRÔNICA
Por Lady



Acordei absolutamente transtornada naquele dia. Não conseguia me lembrar de como chegara até ali. Olhei em meu entorno e tudo que vi eram eles, os zumbis, arrastando-se lentamente por entre os espaços, no chão, comendo tudo o que se mexia, olhos injetados... De longe, um parecia ter se dado conta de minha presença... E agora? O que faria? Pensei rapidamente em imitá-los, seus movimentos lentos, os gemidos estranhos... Mas como imitar o cheiro, o cheiro dos zumbis, do lugar...? Era podre, misturado com qualquer coisa, não conseguia descrever, só sentir. Resolvi, então, ficar parada, sem me mover. 


Percebi uma movimentação logo ao meu lado... ela estava ali... De repente me lembrara, era isso que eu fora buscar ali... a pedra, o elixir da vida... não importava qual o nome que lhe dessem... era a minha pedra filosofal. Eu fora até aquele lugar para busca-la, e estava ali, a poucos metros dos meus dedos. Mas ele ainda estava lá, o zumbi dos olhos injetados, que parecia ter se dado conta de algo que os outros não notaram... um sentimento me assombrou... E se não fosse eu? Se ele não quisesse arrancar de mim as vísceras para saciar a si mesmo? E se ele não quisesse me fazer gritar até que já não restasse mais nada, sim, pois quando eu começasse, certamente outros zumbis deixariam suas atividades cotidianas e perceberiam que eu estava lá, uma sombra incomum em meio a mortos vivos... E se ele, assim como eu, tivesse notado a ela, a pedra?

Meu pensamento foi uma fração de segundo em minha cabeça, mas foi longo o suficiente para que quando eu desse conta de mim mesma ele já estivesse de posse dela, com minha pedra filosofal em suas mãos. A pedra me faria viver acima de tudo aquilo, num instante só meu, num mundo diferente, no qual eu poderia fazer o que eu quisesse, pois nada poria fim à minha vida. O zumbi, com seus gemidos intraduzíveis, estava ali, abaixado, de costas para mim, com os dedos nela, admirando-a momentaneamente, mas já preparado para consumi-la... Mas será possível que ele soubesse do que se tratava? Afinal, ele era um zumbi, e como tal não sabia a importância do objeto que manuseava... 

Aquilo já não importava. Se ele era ou não consciente, não importava. O que estava em jogo era a minha pedra. E se algo não fosse feito, ela não seria mais minha. Em um lapso de reflexão, me dei conta de que sim, faria diferença... se ele fosse consciente não se tratava de um zumbi, que por consenso deveria ser eliminado, mas sim um ser humano, como eu, que estava ali, deitada, esperando a oportunidade de ascender à vida eterna. Mas, ao conseguir, ao alcançar a imortalidade, continuaria eu sendo humana? Não me tornaria algo de estranho à essa raça tanto quanto aquele zumbi?  

Foi quando me dei conta de que uma pedra bem maior estava bem ao alcance de minhas mãos. E ele estava caído, com a cabeça esmagada, sangue para todos os lados. Olhei para minhas mãos e me vi segurando a pedra, meus dedos sujos, vermelhos, gosmentos. E ela estava em minhas mãos. Peguei-a rapidamente, antes que mais alguém se desse conta do que ela representava. Saí andando vagarosamente, não sei se por não querer chamar a atenção ou porque ainda estava chocada com o que acabara de fazer. Olhando-me no que restara de um espelho encostado junto a uma parede suja do que poderia ter sido uma bela loja algum dia, dei-me conta de que ele só poderia ter notado a pedra, porque eu era, também, um zumbi.

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