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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O PALHAÇO

RESUMO

Dentro de sua casa, durante conversa telefônica George faz ameaças para irmã de sua ex-esposa, quando avista pela porta da frente de sua casa um homem, com uma roupa aparentemente encardida, pulando o muro do seu quintal. Apesar do choque e da estranha situação, George resolve tirar satisfações e saber o que aquele sujeito pretende, invadindo sua residência desta forma. 



O PALHAÇO

UMA HISTÓRIA

DE


Mudo
&
Lady



Primeira parte: o Pai.

Em um bairro de São Paulo beirando as 17h00, dentro de sua casa, George fez diversas ameaças por telefone para Vanessa, a irmã de sua esposa, Marta.

George

- Olha aqui, sua vagabunda...

Vanessa

- Vagabunda?! Me respeita!

George

- Vagabunda sim, igualzinha a outra vagabunda que fugiu aqui de casa!

Vanessa

- Fugiu mesmo, porque ninguém aguenta viver do seu lado!

George

- Foda-se! Quando der 18h00, se ela não estiver aqui em casa, eu vou buscar essa puta, e ela vai voltar comigo antes de as garotas voltarem da escola, se não eu arrebento ela, você e quem tiver com vocês!

Vanessa

- Não apareça por aqui! A gente já avisou a polícia!

George

- E por acaso acha que ligo pra porra de polícia? Quero ver o que a Marta vai dizer para filhas dela se eu for preso...

Vanessa

- Escuta aqui, seu lixo, ela não vai voltar, e em algum momento as meninas iriam ter que saber o tipo de pai que elas têm...

George

- Elas têm um pai ótimo, e você nem tem filhos para saber o que é ser pai ou mãe sua...

Um barulho vindo do lado de fora de casa interrompeu George. Vanessa continuou a xingar e berrar, mas ele a ignorou, ao ver pela porta da frente, que estava aberta, uma marreta colorida jogada em seu quintal. Pepe, seu pequeno pinscher, começou a latir euforicamente. Ele caminhou, devagar, em direção à porta, quando viu, no chão do quintal, uma sombra do que seria uma pessoa, em cima do muro da sua residência.

Vanessa

- ... Seu escroto, vou denunciar você ainda essa semana, por que se esta...

George

- Cala boca, Vanessa!

Vanessa

- Não me manda calar a boca, porque...

George

- Cala a boca, Vanessa! Acho que tem alguém entrando aqui em casa.

Vanessa

- Está de brincadeira?! Isso é algum truque seu?! Olha, ela não vai voltar aí!

George

- Cala a boca! Tem alguém...

Antes de George terminar a frase, o sujeito caiu de cabeça, direto no chão do quintal, fazendo um borrão de sangue e um barulho extremamente alto. Até mesmo Vanessa, que estava do outro lado da linha telefônica, foi capaz de escutar. Depois disso, o único barulho que continuava sendo ouvido vinha de Pepe, que continuava latino euforicamente. George, confuso, não conseguia compreender o que estava acontecendo. Ficou alguns segundos paralisado, mas voltou a andar, bem lentamente, em direção à porta da frente.

Vanessa

- Olha, George, se isso for alguma das suas presepadas...

George

- Eu já disse pra calar a boca! Alguém se jogou de cabeça no meu quintal! Será que não pode ficar quieta alguns segundos?!!

George chegou à porta e fica em silêncio ao escutar o sujeito gemendo e levantando, bem lentamente.

George

- Olha, eu não sei, o que quer aqui, mas é melhor ir embora, antes que eu dê um jeito em você ou chame a polícia...

O sujeito exalava a podridão de um animal morto. Usava uma roupa de palhaço feita de trapos... Era o palhaço mais medonho, maltrapilho e sujo que George já vira, repleto de manchas avermelhadas e marrons por toda sua roupa.

Vanessa

- Polícia? Achei que não queria saber de porra de polícia...

George

- Fica quieta, Vanessa! - Gritou mais uma vez, numa mescla de raiva e apreensão, devido às duas situações.

Não demorou muito e o palhaço se pôs de pé, pegou a marreta e olhou para George. Acenou, dando um sinal de tchau e sorrindo, o que rendeu um frio na espinha que quase fez George recuar, mas a curiosidade era maior que o medo. Continuou observando, enquanto o sujeito arrumava sua roupa, ajeitando cuidadosamente sua calça folgada e colocando o nariz vermelho no lugar. Parecia não se incomodar com a queda, mas colocou a mão na cabeça em um local acima da orelha, de onde escorria um líquido escuro e espesso cuja aparência lembrava, é muito, sangue humano. Pepe se aproximou mais, latindo e rosnando para o invasor que apenas sorria com muita tranquilidade... George sentiu novamente aquele frio na espinha.

George

- Que porra é essa?

Nesse momento seu tom de voz era baixo, o que traduzia o espanto de quem nunca tinha visto nada tão bizarro antes. O palhaço, então, deu um sinal de tchau para o pequeno cachorro. George desviou o olhar por alguns instantes, pensando em abrir a boca para mandar Pepe parar de latir, mas  antes de pronunciar a primeira palavra seu cachorro recebeu um golpe desferido com a marreta, com tanta força que esmagou o pobre animal, fazendo que seu sangue e pedaços espirrassem por todo o quintal. O homem, atônito, voltou novamente o olhar para palhaço, bem à tempo de percebe a mudança de sua expressão... Agora o olhar que se via era de ódio: ele bufava de raiva, enquanto segurava a ponta da marreta e pisava em cima do que sobrou do pequeno Pepe no chão. No mesmo instante, porém, sua face vai mudando, e o invasor voltou a sorrir, olhando fixamente para George e dando novamente um delicado tchau.
George deixou o telefone cair de sua mão e rapidamente fechou a porta e pegou o telefone do chão.

George

- Meu Deus, Vanessa, você precisa chamar a polícia! Vanessa? Vanessa? Alô?

O telefone estava mudo. Tentou desligar e ligar novamente, mas o aparelho quebrara na queda... O desespero bateu forte ao lembrar que Marta fugiu com o único celular que eles tinham, já que ele não permitia que a mulher tivesse um aparelho só dela... Um som bem baixo, de um riso, veio do outro lado da porta.

George

- O que você quer comigo?! A Marta que pediu para você vir aqui? Você é algum amigo dela? - Gritou, perguntando, mas não teve nenhum esboço de resposta... falada... O palhaço começou a bater na porta, como se fosse uma visita que esqueceram do lado de fora de casa...

George

- Vá embora, seu maluco, filho da puta! -  Desta vez gritou bem alto, mesmo com o invasor batendo na porta e rindo bem baixo, até que a resposta chegou:


Palhaço

- Hello, come out to play! Heelloooo, come out to play! Heellooooooo, come out to play-ay!

George

- Que merda é essa que ele está falando? - Ele reconhecia que eram frases ditas em inglês, mas perguntava a si mesmo o que poderiam significar. Apesar do choque da situação, George se lembrou que inglês foi sua pior matéria na escola. Nunca gostou e nunca se importou em aprender, e quando podia faltava ou cabulava a essas aulas.

George

- Que momento para se pensar nestas coisas... - Ao que se seguiram os gritos: O que você quer aqui, porra?!

Mas o palhaço apenas continuava com a mesma frase, rindo baixo, enquanto dava algumas batidas na porta. Desta vez, George não teve o mínimo frio na espinha. Estava tão apavorado que seu corpo não respondia mais à essas sensações, ou talvez até pudesse estar respondendo, e se estivesse, ele não perceberia.
Era insano, nada fazia sentido, não dava nem para comparar com um filme de terror, já que nunca viu algo do tipo em um. Porém o medo passou rapidamente e deu lugar à segurança quando ele se lembrou da canela seca que guardada na gaveta do guarda roupas.

George

- Escuta, seu filho da puta, eu tenho uma arma, e se não der o fora daqui vou estourar sua cabeça!

E isso realmente era verdade. George tinha essa arma que não usava a quase dois anos, de uma época em que pilotava carros para seus amigos nos assaltos que faziam durante as madrugadas. Ele sempre teve emprego, mas os assaltos eram um dinheiro a mais no final do mês... - Normalmente eram a grandes mercados e caixas eletrônicos de alguma agência de banco. Parou por conta do perigo, já que nunca achou que fosse errado... Dizia que era o imposto que o governo devia a ele: todos tinham que retirar sua parte. Falava isso sempre. Era uma das muitas frases e ideias que tinha criado pra se convencer que aquilo era o certo a ser feito, assim como a frase "Contanto que sua televisão continue em sua sala, não faz mal usar um pouco", que usava depois de cheirar cocaína com os amigos. Era o "jeito George" de falar que não tinha problema se não se tornasse um viciado, do tipo que rouba as coisas de dentro de casa para comprar mais pó; a frase que mais repetia em casa era "Um cachorro não apanha, só é disciplinado"... Marta sempre demostrava ignorar essa frase, o que o deixava furioso às vezes, mas somente ela sabia o quanto doía ouvir isso depois de uma surra.
George correu para pegar a arma na última gaveta do guarda roupa, aquela que mantinha guardada junto com uma revista em quadrinhos, a primeira edição de Constantine, uma das poucas lembranças da sua infância que não foram destruídas. Mas, para sua surpresa, nem a arma nem a revista estavam lá. Fazia quase quatro ou cinco meses desde a última vez que pegou nela para limpar. Mesmo sem necessidade ele a limpava e às vezes usava para intimidar Marta.

George

- Deve ter sido aquela vagabunda... - disse baixo, depois de tirar a gaveta do guarda roupa e revira-la, para confirmar que a arma realmente não estava lá.

George

- Marta deve ter se livrado da arma depois de tantas ameaças, ou deve ter fugido e levado com ela, assim como fez com o celular... e depois mandou esse sujeito vir aqui me matar - Era no que conseguia pensar naquele momento: que tudo se tratava de uma vingança de sua esposa, mas um barulho vindo da porta da frente de casa, seguido de um berro, colocou um fim em sua tentativa de compreender a situação.

Palhaço

- Motherfucker, why didn't you open the door?
O palhaço parecia furioso, mas conforme falava sua entonação mudava, aparentando ficar mais calmo:  Sorry, please... sorry little boy! Come on! Let's go! - Pelo barulho que tinha escutado e pela  voz do palhaço, este quebrara a porta e entrado na casa. Seu medo voltou...

George

- Sem dúvidas, esse sujeito é maluco - Pensava isso porque, mesmo alertado sobre a arma, o estranho invadiu a casa sem se importar...

George

- Ou então sabe que não estou com a arma em casa, já que foi mandado aqui pela vagabunda... Mas se ela está achando que eu vou morrer, está enganada!

George arranca um pedaço de madeira do guarda roupa e espera pelo palhaço que abre a porta devagar, ele entra com os olhos arregalados e uma das mão na boca para segurar as risadas, a porta se abre completamente e George ainda está segurando o pedaço de madeira prensada como se fosse um jogar de beisebol. Nenhum dos dois se mexe, o coração de George bate tão forte que ele consegue escutar as batidas ou pelo menos tem a impressão que está escutando, quando a feição do palhaço muda novamente.

Palhaço
- Urrhh!



Após um grito o palhaço avança para cima de George com a marreta erguida, os dentes frisados e carregando em seus grandes olhos amarelados um olhar de ódio, que George conseguiu ver e capturar em sua mente em alguns poucos segundos, enquanto revidava o ataque com o pedaço de madeira que se espalhou em vários pedaços ao acertar o palhaço - Essa madeira podre e vagabunda - Pensa George ao ser atingido pela marreta, que apesar de não ter acerto em cheio sua cabeça o faz cair de joelhos no chão - Meus Deus -  Pensa ao ver seu reflexo no espelho - Como estou vivo? - Se questionava, vendo metade da sua cabeça esmagada e um dos seus olhos quase pra fora da sua órbita ocular - Como vou arrumar isso? - Ele não conseguia mais falar apenas balbuciava sons que de longe poderiam ser alguma palavra que estava pensando em pronunciar. Ele se vira para o palhaço, que muda sua afeição e sorri para George, o palhaço o coloca no colo enquanto George apenas baba sangue e balbuciar sons sem sentido algum.


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